Nesta mostra são apresentadas peças de artesanato pertencentes ao acervo do MAP, assim como de expositores convidados.
As mesmas foram elaboradas com diferentes materiais (madeira, metal, tecido, fibras vegetais, vidro) e com diversas técnicas. Podem ser utilitárias, decorativas e/ou significativas do ponto de vista religioso ou social.
Artesãos e artesãs em diferentes contextos históricos têm-se inspirado na natureza, especialmente em flores, plantas e folhas para criarem seus desenhos. Este é o fio condutor da exposição. Um percurso pela coleção de peças de artesanato do MAP que nos levou a selecionar peças que tivessem tais desenhos. As mesmas permitem a reflexão sobre temas tão atuais quanto a sustentabilidade e o cuidado com o meio ambiente.
A atividade artesanal constitui uma das maiores riquezas culturais de uma região ou de uma comunidade e também permeia o estilo pessoal de um artesão.
O vínculo que se estabelece entre os artesãos e as artesãs, com a natureza, é de respeito, e constitui um relacionamento estreito e harmonioso, a partir da cosmovisão, da utilização de materiais renováveis e até do uso de reciclados.
Este binômio artesanato/botânica será um convite para reflexionar a respeito da nossa condição de sermos parte da natureza, e desta forma repensar o nosso vínculo ao enfrentar os temas ambientais, tais como a desflorestação e o extrativismo, entre outras ações que atentam contra o ecossistema afetando, assim, a sociedade mais ampla e em especial as comunidades dedicadas ao artesanato.
O patrimônio do MAP está constituído por obras que representam as tradições gauchescas, as das comunidades originárias e as de artesanato urbano contemporâneo.
Esta última coleção foi adquirida em 2004 e enriquecida a partir dos prêmios Aquisição da Bienal de Artesanato de Buenos Aires (Lei 1348) juntamente com Doações e Compras.
A respeito da prataria, a flor do pensamento -de cinco pétalas com um centro- ou a de cardo santo, planta sagrada para os Pampa mapuches pelas suas propriedades específicas- são desenhos utilizados como ornamentação. Nos repertórios decorativos também são procuradas criações relacionadas com as flores. O mestre Edgard Michaelsen foi um reconhecido ourives que incluiu motivos naturais na prataria obtendo peças que, sem deixar de ser tradicionais, constituíram uma novidade no campo artesanal.
Na Província de Buenos Aires podemos encontrar, de um lado, a prataria da região de Olavarría. A sua ornamentação tem como característica um cinzelamento muito fino e delicado de flores e pássaros, bem como ramalhetes de folhas e flores cruzadas.
Ao mesmo tempo, San Antonio de Areco é berço de ourives em prata, com muitos artesãos destacados. Um deles é Juan José Draghi cuja obra faz parte da coleção do MAP. Criador de facas, rastras e esporas, Draghi desenvolveu um estilo próprio baseado no equilíbrio e na harmonia entre o altamente ornamentado e o liso, com grande senso de proporção.
O MAP tem uma importante coleção de imagens. Nesta mostra veremos retábulos com flores nas portas internas e detalhes botânicos em outras figuras.
A imaginária é uma especialidade da escultura. Trata-se da representação plástica de temas religiosos com propósitos devocionais. Está vinculada à religião católica devido ao seu caráter icônico, e por isso encontra-se especialmente em países nos quais a mesma predomina, como a Argentina. A imaginária religiosa na América Latina mostra os modos de interpretação do culto católico europeu por parte dos artesãos populares, os santeiros.
Entre os artesãos dedicados à imaginária ressaltamos Hermógenes Cayo, santeiro da Puna que desenvolveu uma pintura com flores num estilo absolutamente próprio. Por vezes entalhava também estes desenhos na madeira.
As flores aparecem como um elemento fundamental característico nas urnas elaboradas por Hermógenes. Constituem um verdadeiro padrão ornamental e são a sua “marca de identidade” no dizer de Ricardo González.
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Na Argentina, a cestaria evidencia múltiplas tradições associadas a matérias primas próprias de cada região, que respondem a origens culturais diversas, muito ligadas com o entorno, a filosofia e a vida destes povos.
As matérias primas locais são muito mais do que sustento de produção. São parte das identidades. O vínculo com a paisagem, a época de floração e da poda fazem parte do seu próprio ciclo de vida.
A cestaria de Guanacache (Província de Mendoza) elabora-se com folhas de junquilho, que crescem na região das lagoas. Pelo modo peculiar em que estas fibras são tecidas, pelas suas formas assim como pela decoração com lã tingida, formando velos, é única na Argentina e no mundo.
Laura Romero é uma mestre artesã referente do lugar e reconhecida no país.
Em Quilino (Província de Córdoba) trabalha-se com palha de trigo que aporta reminiscências indígenas e decora-se com penas de galinha, pavão e palha de milho tingidas. Isto pode ser visto nas obras que temos no MAP, decoradas com flores regionais.
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Compartilhamos um fragmento do conto “Minha cama é um jardim” de Bernardo Canal Feijóo (1937)
Ensaio sobre a expressão popular artística em Santiago del Estero.
“Era uma colcha santiaguenha desdobrada ao sol entre duas estacas. Estava montada com vermelhos, amarelos e verdes, em feixes e lâminas e ziguezagues e formas que brilhavam e crepitavam e estalavam....Aquilo era algo assim como um estouro de cores em plena luz (...) Direi que ali, naquela desolada aridez, a cor concentrava a voz, a vontade e a forma que faltava às coisas (...)
Procurei, na minha inquietação, algum confidente, e descobri uma mulher de preto junto a um dos postes do rancho, um manto preto emoldurando seu rosto de mogno. Mãos cruzadas na barriga. De repente, o silêncio estéril parecia retornar, a derrota muda da paisagem, com ela. Mas nada poderia parar minha ansiedade confusa agora, e desabafei apontando para a colcha com a mão, e estas palavras:
- ¡ Que lindo!
Um brilho cintilante nasceu dos seus olhos e seu rosto de mogno descerrou-se num sorriso que revelou um mar de marfim e o desajeitado cruzamento de suas mãos no seu colo ficou animado. Então estas palavras escaparam de sua boca:
- … E se visse minha cama. Minha cama é um jardim...