Prataria Argentina, uma paixão
Esta exposição reúne as coleções de dois amantes da arte da prataria argentina: Carlos Daws, (1870=1947) e Oscar Collazo (Sec. XXI)
Graças a uma cuidadosa seleção de peças, o público poderá percorrer a evolução do ofício de ourives, dos tempos do Vice-Reino do Rio da Prata até os dias atuais.
Carlos Daws, uma figura central na preservação da tradição relacionada aos gáuchos[1], criou, em sua casa do bairro portenho de Balvanera, a princípios do século XX, o Museu Familiar Gauchesco, abrindo suas portas aos interessados que quisessem disfrutar desta coleção. Sua casa abrigava uma diversidade de objetos, incluindo prataria, utensílios em corda, ponchos, pinturas, fotografias e gravuras, testemunhas da vida dos camponeses, criollos[2] e indígenas de uma Argentina que experimentava sua transformação para uma sociedade urbana com forte presença de imigrantes. Sua coleção de prataria criolla é considerada uma das mais importantes da cidade de Buenos Aires, incluindo peças de grande valor histórico, artístico e cultural, tais como cuias, bombas, facas, estribeiras e rastras, intrinsecamente ligadas à vida do gáucho e do campo argentino. Após o falecimento deste filho de inglês e empregado administrativo da Estrada de Ferro do Oeste, sua viúva e única herdeira oferece sua coleção ao governo municipal, que sua a adquire para o Museu de Motivos Populares Argentinos, atualmente MAP – Museu de Arte Popular José Hernández.
Um século mais tarde, Oscar Collazo, com a mesma paixão, reuniu mais de duzentas peças, procurando também registrar a tradição de ourivesaria enraizada em nosso país desde seus primórdios. Sua acurada coleção abrange diversas técnicas e estilos, revelando esse gosto pela prata que persiste ao longo do tempo
A curadoria desta exposição realizada por Segundo Deferrari, especialista em prataria autóctone e diretor do Museu Las Lilas, Roberto Vega, diretor de Hilario, Artes, Letras e Ofícios, agregado ao olhar do curador do MAP Horacio Torres, sugerem um diálogo entre ambas as coleções considerando as formas em que ambas entram em contato com o visitante ao longo do século. Convida-nos a observar as mudanças e coincidências das práticas de colecionismo e exibição de antes e de agora, a conhecer os artesãos ourives e seus destacados trabalhos, e a ressaltar a mensagem única que cada peça guarda. Este encontro entre duas coleções, separadas pelo tempo, mas unidas por uma mesma paixão, oferece uma perspectiva enriquecedora sobre a história e o valor cultural da prataria argentina.
[1] Gaucho pronuncia-se gáucho e não é equivalente a gaúcho (oriundo de Rio Grande do Sul). Define o peão pobre que vivia do trabalho, quase sempre temporário, nas fazendas.
[2] Criollo - Refere-se aos filhos de espanhóis nascidos na Argentina durante a época da Colônia e imediatamente posterior.